Na linha do "salve-se quem puder", tornou-se uma guerra declarada, e nada silenciosa, a disputa por um leito de Centro de Terapia Intensiva (CTI) em Belo Horizonte.
Enquanto alguns amargam na fila à espera de internação, outros encontram na Justiça uma grande aliada na corrida contra o tempo para salvar vidas.
De janeiro até outubro, nada menos do que 61 pacientes recorreram ao Poder Judiciário para se internar em um CTI nas unidades hospitalares de BH, segundo informa a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA). Em todos os casos, o Judiciário concedeu a liminar, exigindo das autoridades a vaga imediata.
O número, comparado com os de 2008, quando 27 pessoas foram à Justiça para assegurar uma vaga no CTI, representa aumento de 125% de ações judiciais que determinam ao município a internação imediata de pacientes nas UTIs. Com relação ao número de ações contra a Secretaria de Estado de Saúde (SES), não foram divulgados dados.
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Na teoria, o enfermo em estado mais grave, os chamados casos emergenciais, tem prioridade na obtenção de um leito de CTI. Mas como a demanda é maior que a oferta, a regra não funciona na prática e o único caminho que resta é a Justiça.
A professora de inglês e atriz Sarah Alves Vieira Marques, de 29 anos, é um exemplo de que recorrer ao Judiciário traz bons resultados na luta para salvar vidas. Sua mãe, a dona de casa Ione Alves Vieira, de 50, sofre de câncer no pâncreas e durante muitos dias sentiu dores "insuportáveis".
Encaminhada, em 28 de agosto, ao Hospital Alberto Cavalcanti, da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), Ione foi para a enfermaria às pressas para ser submetida a uma cirurgia. No entanto, por falta de leito de CTI – necessário para o pós-operatório – ela retornou para casa dois dias depois. "Em 9 de setembro, ela voltou para o hospital, com muita dor, a ponto de dar socos na parede. Ela foi medicada com morfina", conta Sarah.
O processo cirúrgico então foi marcado para o dia 17. "Ela se preparou para a cirurgia, fez até o jejum. Estava ansiosa", lembra. Mas, quando já estava na porta do bloco cirúrgico, mais uma vez Ione foi barrada. Não havia leito de CTI para ela. O procedimento foi adiado para o dia 20. De novo, Ione não conseguiu ser operada, por falta de vaga. Sarah decidiu procurar um advogado, que no mesmo dia pediu à Justiça a internação no CTI de Ione no SUS.
“Quando disse que tinha recorrido ao Judiciário, foi a palavrinha mágica. Os médicos começaram a me dar mais atenção, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais me procuraram. Em menos de 24 horas, montaram um CTI para mim dentro do Alberto Cavalcanti.
Fiz a cirurgia e me internei no leito, que foi improvisado dentro de uma farmácia desativada do hospital", lembra Ione, que confessa que a liminar foi o milagre de que precisava. " Me sentia como se estivesse em um corredor polonês.
É um absurdo ter que chegar ao ponto de procurar a Justiça. Mas, se não fosse isso, não sei o que teria ocorrido. O meu caso era urgente, pois o tumor estava só crescendo. A demora pode até contribuir com uma possível metástase", lamenta.
O mandado, de acordo com a família, facilitou outros procedimentos. "A biópsia era para ter saído em 15 dias, mas saiu em quatro", afirma a jovem, que pagou dois salários mínimos pelo trabalho do advogado. De acordo com a assessoria de comunicação da Fhemig, realmente foi montado um leito extra para Ione, mas o hospital não chegou a receber a determinação da Justiça. Depois da cirurgia, segundo informou a Fhemig, Ione não precisou de ser encaminhada ao CTI.






