Pesquisadores consideram que nova pílula consegue alcançar redução nos tumores em 80% dos casos, além de fazer regredir metástases em outros órgãos contaminadosAté 2011, uma pílula comprada na farmácia e tomada diariamente fará desaparecer tumores que se desenvolveram na próstata e se disseminaram para outros órgãos.
Se não tivesse partido do médico Johann De Bono, oncologista do Institute of Cancer Research — com sede em Londres —, a previsão seria considerada fruto da mente de algum lunático.
De Bono e 15 cientistas do renomado centro de pesquisas britânico descobriram que a substância sintética acetato de abiraterona conseguiu tratar o câncer de próstata em 80% dos pacientes, alguns deles praticamente desenganados pela medicina. Além de surpreendentemente eficaz, a droga mostrou-se segura e bem menos agressiva que a quimioterapia.
Os resultados da primeira fase dos testes clínicos foram publicados na edição de ontem da revista científica Journal of Clinical Oncology. Líder do estudo, De Bono disse que prefere usar o termo "remissão" à palavra "cura", apesar de reconhecer o impacto da pesquisa. "Nossa droga é um composto químico que conseguiu encolher e fazer sumir tumores que já haviam se espalhado para o fígado e os ossos", afirma o estudioso. "O acetato de abiraterona controla o câncer onde quer que ele esteja." Também baixa de modo dramático o nível de PSA — uma proteína produzida pela glândula prostática e usada como indicador do câncer.
Produzida pelo Cougar Biotechnology, laboratório sediado em Los Angeles (Estados Unidos), a droga inibe a produção do citocromo P (CYP) 17, enzima que desempenha papel-chave na síntese dos hormônios sexuais androgênio e estrogênio. "O acetato de abiraterona combate essas enzimas no próprio tumor", explica De Bono. A CYP 17 permite que os hormônios masculinos alimentem o câncer. "A droga altera a produção dos hormônios masculinos em todo o corpo, principalmente no tumor", acrescenta o britânico. Ao atuar na CYP 17, a substância bloqueia os hormônios que levam à progressão da doença. A grosso modo, ela "condena" as células cancerígenas a morrerem de fome.
Os medicamentos atuais apenas interrompem a produção testicular e não provocam impacto no câncer. "A abiraterona causa maiores remissões entre paciências cujos tumores eram resistentes a todos os tipos de tratamento conhecidos", comenta De Bono. "Como os tumores de próstata são abastecidos por hormônios provenientes dos testículos, o que fizemos foi remover as sementes de crescimento do câncer", acrescenta.
Os números da pesquisa impressionam. Os cientistas acompanharam 104 pacientes com idade média de 69 anos, recrutados para o estudo entre 13 de dezembro de 2005 e 22 de fevereiro de 2007. Todos resistiam à idéia de castração e administração de antiandrogênios, substâncias que podem levar a características femininas. "A taxa de resposta positiva variou de 70% a 80%, baseada na medição de PSA", afirma De Bono.
Os especialistas consideram uma redução de 30% no nível da proteína como importante para a sobrevida. Em 20% dos pacientes, a contagem de PSA caiu 90%. Entre 70% e 80% dos pacientes, ela diminuiu em 30% , o que sugere benefícios clínicos. Entre 60% e 70% dos doentes, houve redução maior que 50%. Em alguns casos, voluntários estão há 30 meses sem apresentar sinais da doença. Pelo menos 250 outros doentes apresentaram resultados semelhantes.
A ciência e entidades civis ligadas a pacientes ainda mantêm certa resistência em considerar o avanço como uma revolução terapêutica. "Trata-se de um desenvolvimento incrível, que tem sido avidamente antecipado", afirmou à emissora britânica BBC John Neate, da organização The Prostate Cancer Charity. David Webb, especialista em farmacologia clínica da University of Edinbugh, concorda: "Essa substância claramente parece promissora, mas ainda estamos nos primórdios do desenvolvimento clínico". Segundo ele, "será crucial observar cuidadosamente o balanço entre benefícios e danos, antes de se tirar conclusões sobre a utilidade da droga".






