Traje espacial ajuda a reabilitar pacientes

Ter, 21 de Setembro de 2010 08:52
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Pisar na lua, experimentar a ausência de gravidade e trazer para a terra as notícias do mundo de lá. Isso é missão para astronautas. Mas, por baixo daqueles macacões e capacetes futuristas, que já emocionaram o planeta, uma roupa usada por esses conhecedores do infinito aterrissou como uma nova esperança em Minas Gerais.

Um traje usado por astronautas é a base para uma nova revolução na reabilitação de pacientes que sofreram traumas, lesões e outros problemas que comprometem sua mobilidade física, motora e neurológica.

A vestimenta, que ao ser colocada tende a erguer a postura do debilitado, estimulando músculos e a corrente sanguínea, faz parte de um novo tratamento que será implantando em Minas até o fim do ano, nas redes particular e pública de saúde. A eficácia da técnica será estudada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no fim de dezembro e, se aprovada, poderá beneficiar milhares de pessoas.

Composta por um colete, short, joelheira e sapato, a roupa, conhecida como Traje Adeli era usada por astronautas russos para o ganho de força muscular, pois eles ficavam debilitados quando voltavam do espaço, devido a falta de gravidade. “Ela foi desenvolvida pela agência espacial russa, que levou países vizinhos a usá-la na reabilitação de pacientes.

No Brasil há uma organização não governamental (ONG), em Salvador (BA), que usa o método”, explica o fisioterapeuta Renato Loffi, que conta que um casal nos Estados Unidos começou a usar a roupa em sua filha que sofre de paralisia cerebral, mas eles aperfeiçoaram a veste, criando a Thera Suit. “É esta que estamos trazendo para Minas”, comemora Loffi.

O vice -diretor da Escola de Educação, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG, Sérgio Fonseca, diz que a universidade vai pesquisar o efeito das vestes no tratamento de crianças com paralisia cerebral e comparar os resultados com os obtidos em métodos convencionais. “A vestimenta é parte de um tratamento intensivo.

Essa técnica já é usada em outros países, mas Renato está adaptando-a para a realidade brasileira, para que as crianças do país tenham acesso a essa novidade, que é muito cara lá for a. Se ela realmente se provar efetiva, será um benefício muito grande para milhares de pessoas.”

Proprietário de uma clínica de reabilitação, o fisioterapeuta pesquisou em 2001, juntamente com sua equipe, cerca de 6 mil pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) com problemas musculares, ortopédicos, alinhamento de postura e outros problemas. “Percebemos que existiam falhas nesse tipo de tratamento, pois uma pessoa que sofreu uma lesão no começo consegue avanços, mas depois estagna. O problema dos procedimentos feitos era o tempo de atividade que a pessoa exercia.

Ia às clínicas todos os dias, mas se exercitava apenas uma hora. E o resto do tempo?”, diz, informando que, por esse motivo, além da roupa, está trazendo para Minas o método Treinamento em Reabilitação Neurológica Intensiva (Treini), no qual o paciente fica cerca de oito horas em treinamento intensivo.

Tratamento
“Vamos lançá-lo em Nova Lima, na Grande BH, um primeiro espaço onde pretendemos trabalhar com as percepções sensoriais, cognitivas e motoras. A roupa Thera Suit, que custa R$ 10 mil, é um suporte para o método”, esclarece Renato Loffi, contando que ao trazê-la para Minas, procurou a UFMG para iniciar a pesquisa. “Além de implantarmos o tratamento na clínica particular, acordamos com a Prefeitura de Ribeirão das Neves o tratamento pelo SUS na cidade, atendendo inicialmente 25 crianças por mês”, diz.

Segundo Loffi, a roupa não traz milagre, mas é uma esperança. Ela é presa com gomos elásticos, que se prendem do pé ao joelho, do short ao colete. “Ao caminhar com a veste, aumenta-se o gasto energético do paciente. Como a roupa comprime o corpo, aumenta a estimulação de receptores, melhora sua resistência e força, sua frequência cardíaca e até seu ambiente social. Com isso, o paciente começa a se torna mais funcional”, acrescenta.

Na segunda-feira, o ex-prefeito de Belo Horizonte, Maurício Campos foi o primeiro mineiro a testar a veste. Ele sofreu traumatismo craniano há oito anos e, desde então, vem fazendo tratamentos para se recuperar. “Essa roupa me fez erguer a cabeça. Estou me sentindo bem melhor”, comentou. Sua mulher, Selma Campos, sempre pesquisou tudo sobre novidades em tratamentos, e confessou ter esperança com o novo método. “A padronização dos exercícios acaba não avançando depois de um tempo, por isso é bom mudar.”

Especialistas analisam eficiência do método
Como toda novidade, a roupa espacial não é consenso e nem o método que será implantando em Minas junto com ela. Interessada em conhecer a veste, Silvana Almeida Viana, fisioterapeuta especializada em neuropediatria do Centro Mineiro de Reabilitação, ressalta que o traje pode parecer uma boa ideia e mais uma alternativa, mas o método, para qual são destinadas oito horas de treinamento intensivo, pode não funcionar com as crianças. “É preciso pensar na família.

É claro que treinar por bastante tempo trará melhora para um paciente, mas é preciso levar em conta que o treino não pode se tornar maçante. Como fará a mãe que precisa trabalhar e acompanhar seu filho nesse tratamento? E a escola dessa criança?”, questiona.

O mesmo enfatiza Ana Paula Gontijo, professora de pediatria do Departamento de Fisioterapia da UFMG e proprietária de uma clínica particular. “Não há evidências na literatura que assegurem que a roupa seja eficiente no tratamento. Também temos o projeto de implantá-la na clínica, mas é preciso antes de tudo, cautela para podermos ter certeza de suas consequências na saúde do paciente”, pondera.